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Metáforas

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Metáforas

Dias atrás num post aqui no Facebook, escrevi uma metáfora sobre a insanidade do amor. Um leitor amigo não entendeu, paciência.

 Hoje trago metáforas de Neruda, certamente incontestáveis e mais profundas. Afinal é um laureado com o prêmio Nobel de literatura.

Metáforas
 Há 48 anos, num 23 de Setembro, morria Pablo Neruda, em circunstâncias nunca esclarecidas. Como lembrança, transcrevo trechos do filme que resgatou seu vínculo com a multidão e a arte.

 O filme “O Carteiro e o Poeta” (Il Postino, 1994, Itália) foi produzido a partir de uma adaptação do romance do escritor chileno Antonio Skarmeta, “Paciência Ardente” (1985). Dirigido por Michael Redford, o filme recebeu este título só na tradução em português, nos outros idiomas foi traduzido por “O Carteiro”. O co-diretor e personagem principal Massimo Troisi, era portador de uma cardiopatia grave e morreu ao final das filmagens.

 

O Carteiro é um filme lindíssimo, com visual e trilha sonora maravilhosos, consegue transmitir com extrema sensibilidade e beleza a construção de uma relação de amizade entre o carteiro Mario e o poeta chileno Pablo Neruda, relação esta suficientemente forte para produzir uma verdadeira transformação.

 

O filme desenvolve-se em uma pequena ilha italiana na década de 50 onde Pablo Neruda teria ficado exilado e o carteiro Mario, pessoa simples e humilde, ao lhe entregar as cartas, passa a se interessar pela capacidade do poeta em dominar as palavras e em conquistar um novo mundo de idéias e desejos mobilizados por esse contato, que é bem restrito num primeiro momento, mas, que gradativamente vai se transformando em uma relação profunda de amizade mediada pela capacidade de empatia e de sentir cada detalhe, expressar em uma forma poética e conferir valor a tudo o que é vivido pelos sentidos.

O carteiro fica muito interessado em descobrir como Neruda consegue receber tantas cartas de  mulheres apaixonadas… qual seria a sua magia? E inicia-se aí uma linda jornada compartilhada  sobre o que o poeta lhe apresenta a respeito das metáforas.

 

O carteiro lhe pergunta: “O que é metáfora?”

 O poeta responde: “Metáfora é dizer as coisas de outra maneira”. Então o carteiro diz: “Quer dizer que tudo pode virar uma metáfora?” e o poeta responde: “Sim, tudo pode ser transformado em metáfora”.

 O carteiro, que era filho de pescador, não gostava de pescar, e ficava enjoado com as ondas do mar, sente-se despertado a se reconectar com a beleza do mar, das ondas, do vento, e, aos poucos passa a ter um novo olhar à natureza que o cerca, conduzido pela capacidade de dar um sentido às sensações, podendo acrescentar uma forma lingüística e simbólica às emoções, aos sentimentos, às suas percepções, aprendendo a transformar as palavras em metáforas, passando a acreditar que ele mesmo também poderia transformar-se em um poeta e vir a conquistar  uma mulher. Quando Neruda  questiona Mario por ter utilizado um poema dele para aproximar-se da moça que ele se apaixonara, Mario responde: “A poesia é de quem precisa dela”.

 

De metáfora em metáfora, poderíamos nós também fazermos este exercício de metaforizar a relação entre o carteiro e o poeta para uma relação entre o analisando e seu analista? Sim, com certeza. A  relação deles não estava isenta de uma ideologia. Neruda, em seu papel político e intelectual compartilhava uma ideologia socialista-comunista, que também despertou no carteiro uma posição crítica sobre as relações abusivas de poder político que permeavam a sociedade daquela pequena ilha onde vivia.

 

Diálogos no filme:

Pablo Neruda: “Mas, Mário, o que é que você tá fazendo aí parado como um poste?”

Mário Ruoppolo: “Na verdade, estou cravado como um arpão”.

Pablo Neruda: “Imóvel como uma torre num tabuleiro de xadrez”.

Mário Ruoppolo: “Mais quieto do que um gato de porcelana”.

Com um sorriso de soslaio que vai se abrindo como a mão estendida para a amizade, Neruda diz a Mário que “você está me cobrindo com o musgo das metáforas”. (Ao que Mário talvez pudesse replicar: agora, Neruda, você coberto com o musgo das metáforas como uma rocha que, refém de sua paralisia, precisa suportar as investidas do mar.)

Ocorre que Mário não sabe o que são metáforas.

Pablo Neruda: “Hum, como é que eu vou te explicar?… Metáfora, metáfora… Bom… metáfora é quando se fala de uma coisa comparando-a com outra”.

Mário franze o cenho e coça o cavanhaque que lhe falta ao queixo.

Mário Ruoppolo: “Mas, don Pablo, por que a metáfora tem um nome assim tão complicado?”

Neruda tira a boina e desvela a península itálica de seus últimos cabelos cercados pelo mare nostrum da testa e do cocuruto lisos como uma bola de bilhar.

Pablo Neruda: “Mário, o homem não tem compromissos com a simplicidade ou a complexidade das coisas”.

[O homem, não, caro Pablo, mas os homens (e suas classes em litígio), sim.]

Mário Ruoppolo: “Bom, don Pablo, tudo bem, então me diga: por que você disse – Mário semicerra os olhos para recitar Neruda – que ‘o cheiro de uma barbearia me faz soluçar em voz alta’?” Em meio a seu jardim tingido pela errância roxa das amoras – a amada de Pablo, Matilde, acaba de lhe trazer uma pequena taça de vinho róseo –, Neruda suspira como que a ecoar a brisa suave da tardinha.

 

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