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Tia Surica homenageia Manacéa com o disco 'Conforme eu sou'

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Tia Surica homenageia  Manacéa com o disco 'Conforme eu sou'
São 180 anos de samba. Disco recém-lançado reúne Manacéa Tia Surica, duas lendas da Portela. Ele, compositor talentoso que fez história no carnaval. Ela, cantora e pastora mais antiga da escola de Oswaldo Cruz, em Madureira.
Se fosse vivo, Manacéa José de Andrade (1921-1995) festejaria seu centenário de nascimento em agosto. Em novembro de 2020, Tia Surica completou 80 anos. Os dois se encontram no álbum “Conforme eu sou”, gravado por ela com repertório totalmente dedicado ao saudoso amigo que a levou para a Velha-Guarda da Portela.

“Os planos de comemorar o meu aniversário em novembro tiveram de ser adiados por causa da pandemia. Tudo o que estava sendo planejado precisou ser readaptado aos novos tempos”, conta Iranette Ferreira Barcellos, a Surica. Foi assim que surgiu “Tia Surica da Portela, 80 anos”, projeto viabilizado pela Lei Aldir Blanc.

MEMÓRIA

O novo álbum faz parte dessa iniciativa. Tem o objetivo de valorizar a memória do samba, ressaltando a voz da veterana pastora da azul e branco. “Conforme eu sou” é também uma forma de Tia Surica apresentar as canções do amigo às novas gerações.

“São 12 composições de autoria de Manacéa. Apenas uma, 'Volta, meu amor', foi feita por ele em parceria com a filha, Áurea Maria. Modéstia à parte, o disco vem sendo muito elogiado e ficou muito bom, graças a Deus. Tenho a certeza e muita fé em Deus de que será um sucesso”, diz ela.

O álbum está disponível no canal de Tia Surica no YouTube. No repertório, destacam-se clássicos de Manacéa, como “Quantas lágrimas”, que todo mundo conhece das rodas de samba, mas desconhece quem a compôs. Aliás, essa canção tem tudo a ver com estes tempos de pandemia. 

Diz assim: “Ah! Quantas lágrimas eu tenho derramado/ Só em saber/ Que eu não posso mais/ Reviver o meu passado/ Eu vivia cheio de esperança e de alegria/ Eu cantava, eu sorria/ Mas hoje em dia eu não tenho mais/ A alegria dos tempos atrás”.

A direção musical de “Conforme eu sou” é de outro mestre: Paulão Sete Cordas. O disco conta também com Cristina Buarque, irmã de Chico e expert em samba. Aliás, foi essa cantora, que interpreta a faixa “Inesquecível amor”, quem apresentou “Quantas lágrimas” ao Brasil, em disco lançado em 1974.

Tia Surica é também famosa cozinheira – sua feijoada é considerada a melhor do Rio de Janeiro. Pois a “cozinha” do novo álbum, sob a batuta de Paulão Sete Cordas, não poderia ser menos competente: Rogério Caetano (violão de seis cordas), Márcio Vanderley (cavaquinho), Dudu Oliveira (flauta e sax), Luiz Barcelos (bandolim), Rodrigo Reis, Leo Rodrigues e Waltis Zacarias (percussão), Lazir Sinval, Deli Monteiro, Iracema Monteiro e Sílvia Nara (vocais). Também estão lá Velha- Guarda, Áurea Maria, Sergio Procópio e Rubão da Cuíca.

Grata a Manacéa, Tia Surica comenta: “Ele foi responsável pelo que sou hoje.” Surica conta que seu primeiro contato com a escola se deu aos 4 anos, levada pela mãe, Judith, e o pai, Pio. Fez de tudo na azul e branco: cantou no coro, desfilou nas alas, saiu de baiana. Também puxou o samba na avenida, em 1966, cumprindo a ordem do lendário Natal. Aquele samba-enredo se chamava “Memória de um sargento de milícias”, composto por um jovem chamado Paulinho da Viola...

“Se alcancei meus objetivos, foi com muita força do Manacéa, que me integrou à Velha-Guarda da Portela, na qual estou desde a década de 1980. Infelizmente, não sou compositora, somente intérprete. Confesso: gostaria muito de compor, porém acho que não tenho inspiração para tal”, diz ela.

DE COR

Tia Surica conhece como poucos a obra do “padrinho”. “Já sabia de cor todas as canções dele, por isso foi fácil fazer o repertório do disco. Fizemos uma relação e fomos eliminando até chegar às 12 faixas. Não tivemos dificuldade, apenas demos uma peneirada e ficou lindo”, comenta.

“Gravamos no estúdio, sob o comando do Paulão. Para fazer um CD digno, tem que ser mesmo em estúdio”, afirma, feliz com a participação de Cristina Buarque em seu novo trabalho. “É minha amigona. Ela me chama de minha preta e eu a chamo de minha branca.” Surica agradece à irmã de Chico Buarque pelo empenho em divulgar a obra de Manacéa.
Violonista, arranjador e produtor, Paulão Sete Cordas destaca o papel de Manacéa na música popular brasileira. “Ele foi um dos compositores mais importantes da história da Portela. Um dos poucos que ganharam samba-enredo na escola, se não me engano, três”, observa.

Aliás, foi Manacéa quem convidou Paulão para tocar com a Velha- Guarda. “Fiz a direção musical daqueles shows nos anos 1980 e 1990. Convivemos muito, é motivo de muita alegria fazer um CD só com trabalhos dele. Eu e Surica conhecemos tudo dele. Só gravamos uma inédita, a que a Cristina Buarque canta. Acreditamos que ainda existem coisas que precisam voltar à baila para que as pessoas possam conhecê-las.”

O conceito do disco de Tia Surica remete à roda de samba. “Foi como se estivéssemos em casa. Uma coisa bem elegante, não muito pesada, sem bateria e contrabaixo. Gravamos com violão de seis e sete cordas, bandolim, cavaquinho, flauta, percussão e coro. Ficou muito legal”, diz Paulão, bamba que já tocou com Nelson Cavaquinho e trabalha com Zeca Pagodinho há mais de 20 anos.

“Conforme eu sou” é o terceiro disco da sambista carioca. Em 2004, ela lançou “Surica” (Fina Flor), também produzido por Paulão Sete Cordas, com direção de Ruy Quaresma. O repertório, claro, reúne a elite da Portela – Monarco, Aniceto, Jair do Cavaquinho, Mauro Duarte e Candeia, entre outros.

O CD e DVD “Tia Surica – Poderio de Oswaldo Cruz”, de 2013, novamente produzido por Paulão Sete Cordas, contou com a participação da Velha-Guarda da Portela, Diogo Nogueira e Mariene de Castro. O repertório reuniu sambas de Monarco, Argemiro, Aniceto e Manacéa, além do mineiro Toninho Geraes.

PANDEMIA

Aos 80 anos, Tia Surica não mede esforços para divulgar o samba, a Portela e seus compositores queridos. No último Dia das Mães, lançou nas plataformas digitais o single “Conselho da mamãe”, outro clássico de Manacéa. Preocupada com a pandemia e o impacto da COVID-19, ela desabafa: “Está muito constrangedor, já não falo nem do carnaval, mas das pessoas desabrigadas e passando fome. Tenho muita fé em Deus de que isso vai passar.”

A dama do samba garante que cumpre à risca o isolamento social. “Não vou para a rua, muito menos até a Portela. É complicado... Conheço muita gente que morreu por causa da COVID-19”, revela Tia Surica. (Com Ângela Faria)

Repertório

» “CONSELHO DA MAMÃE”
» “SEMPRE TEU AMOR”
» “MANHÃ BRASILEIRA”
» “VOLTA”
» “QUANTAS LÁGRIMAS”
» “INESQUECÍVEL AMOR”
» “VOLTA, MEU AMOR”
» “A NATUREZA”
» “NASCER E FLORESCER”
» “QUANDO QUISERES”
» “FLOR DO INTERIOR”
» “CARRO DE BOI”

(foto: Divulgação)
Tia Surica homenageia  Manacéa com o disco 'Conforme eu sou'



“CONFORME EU SOU”
• Disco de Tia Surica, com canções de Manacéa
• 12 faixas
•  Disponível nas plataformas digitais

Monarco diz que compositores desistiram dos próprios sambas ao ouvir a ''melodia forte'' de Manacéa(foto: Wanderlei Pozzembom/CB/D.A Press %u2013 14/9/90)


Tia Surica homenageia  Manacéa com o disco 'Conforme eu sou'


Monarco diz que compositores desistiram dos próprios sambas ao ouvir a ''melodia forte'' de Manacéa(foto: Wanderlei Pozzembom/CB/D.A Press %u2013 14/9/90)
 

Mestre do samba


O legado de Manacéa José de Andrade (1921/1995) é patrimônio da Portela, do Rio de Janeiro e do Brasil. Irmão de Aniceto e Mijinha – lendas da azul e branco de Oswaldo Cruz –, ele compôs sambas para vários enredos levados à avenida: “Homenagem à princesa Isabel” (1948), “O despertar do gigante” (1949), “Riquezas do Brasil” (1950) e “Brasil de ontem” (1952), por exemplo.

A paixão pelo carnaval veio da infância, informa o “Dicionário Cravo Albin de música popular brasileira”. Criança, Manacéa já rodeava os blocos Quem Fala de Nós Come Mosca, Quem nos Faz é o Capricho, e Vai Como Pode, que deram origem à Portela.

De origem humilde, o carioca trabalhou em fábrica de gelo e como serralheiro. Na década de 1940, seu talento já chamava a atenção nas escolas de samba e morros do Rio. Aos 18 anos, teve a primeira música gravada, “Minha querida”.

O samba “Quantas lágrimas” estourou em 1974, no disco de Cristina Buarque. Em 1970, a canção já havia sido registrada por Paulinho da Viola no LP da Velha-Guarda da Portela.

“A melodia dele era muito forte. Teve ocasião em que cheguei a ver portelenses, como o Chico Santana, fazerem samba-enredo, mas, depois de escutar o do Manacéa, botar no baú e não disputar”, contou Monarco, outro patrimônio da azul e branco.

Foi no quintal de Manacéa e dona Neném, em Oswaldo Cruz, que a Velha-Guarda da Portela fez seus primeiros ensaios, à base de partido-alto, samba de roda, galinha com quiabo e churrasco, preparados pela anfitriã e por Aniceto.
As composições de Manacéa fazem parte do repertório de Beth Carvalho, Zezé Motta, Paulinho da Viola, Cristina Buarque, Teresa Cristina e Marisa Monte, entre outros.




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